Abaixo do nível do mar, Holanda tenta se defender da mudança climática global

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    Estudantes holandeses competem na construção de castelos de areia em NoordwijkEstudantes holandeses competem na construção de castelos de areia em Noordwijk

Em uma praia larga e de terreno irregular no Mar do Norte aqui, recentemente, crianças formaram equipes de oito a dez participantes, posicionando-se ao lado de montes de areia cuidadosamente cercados com fita vermelha e branca. Elas tinham uma hora para competir na construção de castelos de areia. Algumas fizeram estruturas que se pareciam com peixes, completas com escamas. Outras passaram o tempo elaborando labirintos de poços e diques. Cada castelo foi adornado com uma bandeira branca no topo.
Então, elas observaram o mar invadir e devorar seu trabalho, vendo o castelo de quem aguentava por mais tempo. A última bandeira em pé venceu.
O dia delas na praia não foi um dia comum, mas uma competição recém-criada e sancionada para crianças em idade escolar para aumentar a conscientização sobre os perigos do aumento do nível do mar em um país com uma geografia precária que deu ao mundo lições sobre gerenciamento da água, mas que teme que a próxima geração cresça complacente.
Na Holanda, 55% do território está abaixo do nível do mar ou bastante sujeito a inundações. Porém, graças à renomada expertise do país e grande orçamento para gerenciamento das águas (cerca de 1,25% do PIB), a Holanda evitou a catástrofe desde uma enchente desastrosa em 1953.
Especialistas temem que o famoso sistema de gerenciamento das águas holandês de fato funcione tão bem que os cidadãos passarão a dar por certo o sucesso do país em permanecer livre de enchentes.
À medida que a mudança climática global ameaça aumentar os níveis do mar em até 1,2 metro até o final do século, as autoridades aqui estão trabalhando para trazer para a realidade das crianças as previsões que podem parecer distantes, mas que determinarão seu futuro quando forem adultos e idosos.


“Tudo funciona tão bem que as pessoas não percebem mais que estão correndo risco em desenvolver áreas urbanas em regiões baixas”, disse Raimond Hafkenscheid, organizador da competição e especialista em água no Ministério do Exterior.

Antes da competição, as crianças, de 6 a 11 anos, foram orientadas por especialistas na construção de diques e gerenciamento das águas. Voluntários ficaram de prontidão, muitos deles recém-formados como engenheiros civis, dando conselhos de último minuto sobre como melhor lutar contra o aumento do nível das águas.
O evento, patrocinado por duas autoridades regionais de água, também contou com a sofisticada tecnologia holandesa, incluindo um drone que monitorava a infraestrutura de gerenciamento de água mais difícil de ser atingida, e um jipe com uma câmera infravermelha usada para detectar a fraqueza dos diques, que mostrou imagens térmicas dos castelos de areia mais promissores em resistir ao mar.
“Se as crianças podem fazer isso sozinhas, elas de fato aprendem”, disse Harcko Pama, professor da escola fundamental de Heemstede.
“Eu sei que elas se lembrarão disso quando forem mais velhas – isso tem um impacto enorme”, disse ele.
A classe de Pama, de crianças de 11 anos de idade, competiu em três equipes separadas para construir o castelo mais resistente à água. Armados com pás e usando as mãos e os pés para assentar a areia molhada, as crianças improvisaram, algumas levando água do mar para os castelos dentro dos sapatos, outras usando toalhas para transportar a areia. Os terrenos medindo 7,5 metros quadrados foram alinhados cuidadosamente ao longo da praia. Os organizadores cronometraram o exercício para que as crianças (e os juízes) pudessem assistir ao seu trabalho ser destruído pela maré logo depois de terem terminado a construção. Cerca de 250 crianças participaram da competição.
Como parte de uma lição maior, as crianças, de quatro escolas de ensino fundamental de regiões baixas do país, encontraram-se em um trecho da praia a menos de 16 quilômetros ao norte de um grande projeto de reforma de dique. O novo dique que protege a cidade litorânea de Katwijk terá um centro reforçado de concreto e um estacionamento subterrâneo. O projeto deve ser concluído no início do ano que vem a um custo de quase US$ 70 milhões.
Um relatório recém-divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico sobre gerenciamento das águas na Holanda apontou para uma “falha de consciência” entre os cidadãos holandeses. A descoberta influenciou bastante a realização do concurso de castelos de areia.
“Você vê todas essas crianças e seu entusiasmo – esta é nossa esperança para o futuro”, disse Gerard Doornbos, presidente do Conselho de Controle das Águas do Distrito de Rijnland.
O título de Doornbos, “dijkgraaf”, ou conde do dique, atesta sua origem do século 13 e a orgulhosa tradição dos conselhos de água. Ele disse que a expertise e o investimento na proteção contra as águas ao longo dos anos é uma das razões pelas quais a Holanda, com seus novos planos orientados para o futuro, está relativamente preparada.
“Se começarmos a antecipar, como estamos fazendo, será bem mais fácil”, disse ele sobre o aumento do nível do mar.
Apesar de todo o entusiasmo óbvio que a construção de castelos de areia provocou, a destruição dramática pelas ondas de 30 centímetros foi o ponto alto do dia. As crianças correram pela água de ruína em ruína, torcendo enquanto os castelos caíam um a um.
No final foi a classe de Esther van Zuylen da Escola Elementar de Flambouw na cidade de Nigtevecht cuja bandeira branca resistiu à enchente por mais tempo, e sua classe recebeu um pequeno troféu de vidro do dijkgraaf como prêmio.
“Fazer castelos grandes na maré baixa e tentar defendê-los à medida que a maré avança – é isso que nos faz holandeses”, disse Hafkenscheid. (Do Uol)

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