Expedição captura e marca aves migratórias

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Cerca de 9 mil aves limícolas de pelo menos 12 espécies foram registradas durante os censos (contagens) que acabam de ser realizados no Parque Nacional da Lagoa do Peixe, no litoral do Rio Grande do Sul, pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave) e parceiros. O Cemave é um centro especializado do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia do Ministério do Meio Ambiente (MMA).
As aves limícolas são normalmente encontradas em praias e zonas úmidas próximas de água salgada, salobra ou doce. Em geral, alimentam-se de pequenos invertebrados aquáticos presentes no lodo, em águas rasas ou praias adjacentes. Algumas são migratórias, outras residentes. Das 47 espécies que ocorrem no Brasil, 13 são residentes, quatro são migrantes do Cone-Sul e 30 são migrantes do Hemisfério Norte.
A expedição, que durou dez dias, foi encerrada na semana passada. Além dos censos, os pesquisadores capturaram aves migratórias para biometria, coleta de amostras biológicas e marcação com anilhas e bandeirolas. Os dados biométricos e amostras são importantes para obter informações sobre as condições fisiológicas e nutricionais das espécies e a existência de vírus, parasitas e patógenos (agentes causadores de doenças), permitindo aos pesquisadores compreender melhor a biologia e a ecologia das espécies e, principalmente, auxiliar na conservação.
CAPTURAS
De acordo com os censos, a ave mais abundante na região da Lagoa do Peixe é o maçarico-de-sobre-branco (Calidris fuscicollis). As capturas foram feitas com rede de neblina colocadas à noite e, também, durante o dia com rede de elástico (whooshnet). Antes de serem soltas, as aves capturadas receberam uma anilha metálica com a inscrição CEMAVE e a bandeirola azul do Programa Pan-Americano de Aves Limícolas (PASP), indicando que foram marcadas no Brasil.
“Desse modo, nos próximos meses ou anos, quando as aves forem recuperadas, a visualização da bandeirola poderá gerar informações importantes sobre o deslocamento e destino delas. Já as amostras coletadas se destinam a diferentes finalidades, com destaque para os estudos virológicos conduzidos na USP e para a pesquisa de doutorado do professor Fernando Faria, da FURG, que investiga aspectos da ecologia trófica das aves limícolas migratórias ameaçadas e apresentadas no parque”, explica a analista ambiental Danielle Paludo, coordenadora do PAN Aves Limícolas Migratórias.
DECLÍNIO
O grupo das aves limícolas migratórias tem capacidade para grandes deslocamentos e apresenta contínuo e acentuado declínio populacional de praticamente todas as espécies. O consequente risco de extinção tornou esse grupo prioritário para a Convenção de Espécies Migratórias (CMS), acordo que o Brasil ratifica, e alvo de um Plano de Ação Nacional (PAN) para a sua conservação, conduzido pelo Cemave/ICMBio, com apoio do Ministério do Meio Ambiente.
“O desafio de conservação desse grupo de aves é grande, pois são espécies que possuem um ciclo de vida que envolve diferentes países e latitudes entre os sítios reprodutivos, geralmente no Ártico, e sítios de parada e invernada, geralmente no Hemisfério Sul. Elas enfrentam caça, perturbação e destruição de habitat, contaminação dos alimentos e efeitos do aquecimento global , entre outras ameaças”, diz Danielle Paludo, coordenadora do PAN Aves Limícolas Migratórias.
NOVAS EXPEDIÇÕES
A expedição ao Parque Nacional da Lagoa do Peixe foi realizada entre os dias 6 e 17 deste mês e fez parte do projeto de monitoramento de aves Cemave/GEF Mar. Contou com a colaboração de pesquisadores do ICMBio, Ceclimar/URGS, FURG, UFAL e USP e apoio da equipe do parque nacional. Durante os dez dias, a equipe permaneceu acampada na Barra da Lagoa do Peixe e realizou os censos e as capturas das aves limícolas e marinhas nos ambientes de campos, praia arenosa e lagunar.
Ainda nesta temporada de invernada das aves migratórias, que se encerra em abril, estão previstas outras duas expedições para monitoramento e pesquisa no Parque da Lagoa do Peixe. Desta vez, os trabalhos serão organizados por parceiros e terão a participação do Cemave. Em abril, o Centro planeja realizar expedição semelhante no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, importante ponto de parada das aves rumo ao Norte.
“As parcerias e cooperações interinstitucionais e o apoio e envolvimento das equipes das unidades de conservação têm se mostrado a melhor estratégia da promoção de conhecimento das espécies prioritárias e perspectiva de continuidade dos trabalhos a longo prazo”, afirma Paludo.
Os censos de aves limícolas são realizados periodicamente no Parque Nacional da Lagoa do Peixe e integram o monitoramento das espécies prioritárias da unidade de conservação. O monitoramento vem sendo implantado de forma padronizada com apoio do projeto GEF Mar. Os trabalhos, que já eram feitos, inicialmente, de forma sistemática no ambiente de praia, foram agora ampliados para ambientes de campo e lagunar.
Segundo Danielle Paludo, o conhecimento de quais as aves e como elas vem utilizando o parque ao longo do ano são subsídios importantes para a gestão da unidade de conservação e eventuais ações de manejo para a sua conservação. O parque da Lagoa do Peixe foi criado com o objetivo de proteger as aves migratórias e seus habitats e é reconhecido internacionalmente como um sítio da Rede Hemisférica de Reservas de Aves Limícolas Migratórias.
Os censos, ainda segundo ela, contribuem também para o conhecimento das tendências do grupo das aves limícolas ao longo das Américas, em seu deslocamento pelas rotas migratórias através do intercâmbio de informações com outros grupos e instituições de pesquisa atuando em outros pontos de parada, invernada e reprodução das aves nas Américas. Essa articulação vem sendo desenvolvida pelo Cemave/ICMBio através da participação na Iniciativa Pró-Aves Limícolas Migratórias na Rota Atlântica e do Comitê da Rede Hemisférica.
Recentemente, os pesquisadores levantaram hipótese de que parte das populações não tem conseguido realizar a reposição energética requerida para as migrações. Por isso, as avaliações fisiológicas são importantes em áreas como o parque da Lagoa do Peixe, que é um sítio onde o Cemave realiza marcação e biometria das aves há muitos anos. O cruzamento com os dados coletados no passado pode gerar resultados importantes para a conservação. Esse é um dos trabalhos propostos pelo projeto GEF Mar para o parque e para o PAN.

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