Força-tarefa quer garantir presença de peixes no Rio Pinheiros em dois anos

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Enquanto funcionários evoluem pelas águas fétidas de um pequeno rio na região de M’Boi Mirim, Zona Sul de São Paulo, uma barreira quase intransponível surge no horizonte: a laje de uma casa paira sobre o riacho, exigindo uma manobra audaciosa para o assentamento da tubulação de esgoto. Esse é um dos casos cotidianos do “Programa Novo Rio Pinheiros”, que envolve oito órgãos do governo do Estado de São Paulo e planeja deixar o rio urbano sem cheiro e com um índice mínimo de oxigênio até o final de 2022 – ante o cenário indecoroso atual, parece ser muita coisa. A garantia de 2 mg/litro de oxigênio dissolvido implicaria inclusive o retorno de espécies de peixes menos exigentes, como cascudos e bagres. O caminho para se alcançar tal feito, entretanto, é tortuoso e desperta questionamentos. Uma das apostas é a instalação de cinco unidades de tratamento de rios, chamadas URQs (unidades recuperadoras de qualidade das águas), em rios afluentes do Pinheiros. O problema é que a história recente depõe contra o otimismo.

Desde 1970, o Rio Pinheiros vem sendo objeto de ações de melhoria de sua qualidade, sem sucesso. No esforço mais recente, em 2007, foram instaladas estruturas de tratamento de esgotos no leito do rio, por meio de uma tecnologia chamada Flotflux, patenteada pela empresa DT Engenharia. O negócio acabou emperrado, e naufragou em 2011. Dessa vez, assegura a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), tudo será diferente. A meta, bastante ousada, é levar dejetos de 1,6 milhão de pessoas (95% das quais vivem na capital, e o restante em Embu das Artes e Taboão da Serra), para a Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) de Barueri, também na Grande São Paulo.

“O conceito é tirar a poluição das sub-bacias. Temos 16 frentes de obras, hoje. Queremos um rio sem odor e limpo. Mas é possível fazer a coleta e afastamento de esgotos de toda bacia? Não, em função das áreas informais. Daí a necessidade das URQs”, explica Edison Airoldi, assistente executivo da Presidência da Sabesp.

O consórcio das empresas Engeform e Allonda Engenharia ganhou, em maio, os pregões da Sabesp para fornecer sistemas de tratamento de rios. São 3 plantas já licitadas (Água Espraiada, Pirajussara e Cachoeira), com volumes que vão de 180 a 600 litros por segundo, no valor de R$ 150,49 milhões. ((o))eco apurou junto à Engeform Engenharia que o contrato da URQ do Córrego Pirajussara foi o único já assinado e que obra, operação e manutenção têm duração de 10 anos. Segundo a empresa, a mobilização do time responsável já começou. A tecnologia vencedora é do tipo Reator Biológico com Leito Móvel (MBBR, na sigla em inglês), resultado da combinação entre sistemas dos tipos biomassa líquida em suspensão e biomassa aderida (biofilme). As águas dos rios são captadas e seguem para tratamento em um reator biológico. Depois volta ao curso dos rios que desembocam no Pinheiros. Isso, claro, se não houver mudança na tecnologia – a Sabesp não descarta inclusive o uso da flotação, método usado, com resultados pífios, no passado recente.

Na foz de cada rio que vai ganhar uma unidade de tratamento de esgotos, a Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), parâmetro que afere a atuação de microrganismos, deve ser de menos de 30 mg/litro. Atualmente, em muitos rios tributários do Pinheiros, esse valor chega a 220 mg/l (quanto maior, mais poluído está o curso hídrico). O patamar de 30 mg/l permite, segundo Edison, um “início de manifestação de vida aquática”.

Segundo o engenheiro sanitarista Isaac Volschan Júnior, professor do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a tecnologia MBBR não é uma novidade, mas é utilizada em maior escala em tratamento de esgotos. Para Isaac, a prática pode servir bem para o controle da poluição difusa, aquela que continua existindo mesmo após esforços de saneamento na sub-bacia.

“É uma solução que pode funcionar, desde que não se abra mão no tratamento formal de esgotos a montante (acima) da bacia. A tecnologia permite fazer uma otimização do volume da estrutura. Trabalhamos com MBBR, no âmbito de tratamento de esgotos, na UFRJ, há mais de 15 anos, não é algo novo. Existem muitas estações aqui no Brasil e no mundo que aplicam essa tecnologia”, afirma.

Cronograma apertado

As obras seguem caminhando e, hoje, 9% das 533 mil economias [residências] que serão ligadas à ETE Barueri já têm seus esgotos tratados. Apesar do enorme caminho pela frente, a Sabesp assegura que o ritmo de execução das obras está acima do previsto. “É um grande laboratório para nós, vamos tirar ensinamentos para outras localidades. Tinha gente que queria colocar uma barreira na entrada do Pinheiros e resolver. Não é essa a ideia, de forma alguma. O nosso objetivo é levar cidadania para as pessoas”.

A despeito da constante presença de famílias de capivaras e outros pequenos roedores em suas margens, o Pinheiros é um enorme valão de esgotos, com oxigênio zero em praticamente todos os seus 26 quilômetros de extensão. Também está em licitação uma tecnologia de oxigenação do rio – mais um esforço para dotá-lo do mínimo de dignidade. A volta de peixes maios resistentes a baixos índices de oxigênio não é um sonho impossível.

“Mas é importante ressaltar que cada cidadão deve fazer o seu papel. O resultado não virá e não se manterá se ficar a cargo de um único ator. É um trabalho coordenado e multidisciplinar”, diz Edison, acrescentando que a pandemia do novo coronavírus não afetou a marcha das intervenções. “Ao contrário, as obras na região da Faria Lima foram até facilitadas, por causada queda do fluxo de trânsito”.

Um dos céticos quanto à despoluição do Pinheiros é o conselheiro de Meio Ambiente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Jose Eduardo Cavalcanti. Ele não acredita que o novo programa seja concluído a tempo.

“Entregar até 2022 é impossível. Várias tentativas já foram feitas, e fica por isso mesmo… Alguma coisa melhora, claro. Mas no longo prazo, se perde. Mesmo se todo o esgoto de SP fosse tratado, o rio continuaria sujo, por causa das galerias pluviais, da má educação das pessoas. Sobre essas URQs, as pessoas precisam saber que são cursos altos e o destino do lodo [formado nos processos de limpeza] é sempre um problema”, argumenta.

Foto: Divulgação/Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A.

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